"Os seus voos directos indicaram-me a entrada do castanheiro enorme, velho de muitos anos. De fronde fabulosa. Um convite ao silêncio e também à frescura na penumbra interior que se adivinhava.
Súbito. Inesperado. Rouco e atroador. Chegou. Chegou o monstro. Aquele iconoclasta!
Voltando às 16 horas, já não havia Hotel. Nem restos. Nem folhagem.
Irá o Hotel dos Pássaros ressurgir das ruínas? Desérticas e feias, secas e desoladas?
O Grande Construtor, como eu indignado, faz renascer dos restos, brotar de entre os raízes e as farpas de tronco, os novos alicerces, verdes e verdejantes. Na sequência das chuvas.
São um sinal de júbilo e um grito de esperança. Um pouco fantasiosa. Porque obra de tal monta leva mais de cem anos para ser concluída. Já então cá não estarei. Mas se for vendo aos poucos o reerguer do prédio terei um bom motivo para me regozijar".
Este é um livro que conta coisas do dia-a-dia.
Como se, de repente, uma memória fosse ao mesmo tempo calma e avassaladora. Imperiosa e lenta. Lenta e reflexiva.
Conta dias amargos e gestos de ternura. De uma ternura imensa.
Maria Elisa Pinheiro oferece-nos, numa dádiva aberta, os seus textos de horas de evasão e de recolhimento.
Cenas e testemunhos que guardou largos anos na duração dos tempos.
Cenas da nossa época vividas hoje mesmo no seu trato do Mundo. Chegadas pelos media, no seu falar constante. Por vezes comentadas. Por vezes comparadas.
Factos. Vivências várias. Tristes. Ou coloridas. Retratos de uma existência que se vai prolongando. Que ainda partilha. Como é de seu modo. Seu gosto. E seu timbre.